#10 - Decisões Críticas - Parte 2: Risco Deliberado e Erro

Este artigo explica a importância de tentar manter sua mente na tarefa o máximo possível e fornece dicas práticas de como fazer isso quando a quantidade de energia perigosa é alta o suficiente para causar ferimentos graves.

No último artigo, analisamos por que as pessoas tomam decisões que podem ser arriscadas ou influenciadas negativamente por pressa, frustração, cansaço e complacência; ou, mais provavelmente, por uma combinação desses estados. Em muitos casos, ocorre quando a pessoa está fazendo algo fora da regra: como não utilizar o equipamento de proteção individual porque já está quase no final do expediente, e é “algo rápido de resolver…”

Em muitos desses casos, a “exceção” que eles estão fazendo será com algo que não é tão necessário para a conclusão da atividade, e as consequências não serão tão sérias, desde que ninguém cometa um erro crítico ou algo aconteça inesperadamente. Portanto, independente do quão apressado você esteja, você não poderá dar a partida no carro sem as chaves, mas poderá dirigir sem colocar o cinto de segurança. Você provavelmente não entraria em um bote sem remos, mas pode esquecer ou decidir não usar coletes salva-vidas.

É aqui que as coisas começam a ficar interessantes: você pode deixar o bote sem remos – se você tiver um motor no barco. E pode se afastar do atracadouro e ultrapassar a área dos molhes com uma pequena quantidade de combustível. No entanto, quando estiver sem gasolina, estará em mar aberto, sem remos.

Se você se lembra de um dos exemplos ou casos do último artigo: retirar o dispositivo de segurança de um disco de corte requer que você pense um pouco e não é fácil; talvez não tão trabalhoso quanto caminhar 15 minutos apenas para descobrir que o armário de ferramentas já está fechado, e então caminhar 15 minutos para voltar. Eu não mencionei que fazia calor, aproximadamente 40°C e o ar estava úmido. Se, em algum momento o rapaz pensasse no motivo de estar fazendo algo diferente, e se tivesse se perguntado se o que estou fazendo se deve principalmente à pressa, frustração, cansaço e complacência, e se ainda fizesse mais uma pergunta: qual é a pior coisa que poderia acontecer? Provavelmente, isto não teria acontecido. Nada é garantido, mas se todos pudéssemos ampliar o uso da técnica de se Conscientizar do Estado – voltar ao momento presente – e pudéssemos nos fazer estas duas simples perguntas, muitas destas exceções que levam a graves lesões e fatalidades poderiam ser evitadas.

Agora, por outro lado, alguém que normalmente não usa um dispositivo, procedimento ou protocolo para reduzir o risco, indica geralmente nada mais do que uma resistência natural à mudança ou a mudar um hábito. É por isso que levá-los a refletir sobre os incidentes ou quase acidentes e como poderiam ter sido piores pode ser muito eficaz aqui. Infelizmente, o problema com decisões críticas não para com a complacência causando um comportamento habitual de risco, ou alguém tomando uma decisão arriscada por causa de pressa, frustração ou cansaço.

RISCO QUE DEPENDE DO ERRO

O próximo conceito, é uma grande mudança de paradigma: especialmente quando acontece com você. Uma coisa é ler algo e entender, outra coisa é descobrir o que fazer no momento em que ocorre. O ano era 1994. Eu estava esquiando na França. Meus companheiros de esqui eram todos engenheiros, amigos de Ian, que conheci no Canadá, e todos eles fizeram parte de um clube recreativo de esqui na Universidade. Eles tinham mapas, bússolas e planejaram em que locais esquiaríamos. Fizeram isso por oito dias seguidos. Então, houve uma tempestade.

Enquanto esperávamos que a neve caísse (e havia muita), deixe-me voltar à premissa original de onde veio essa mudança de perspectiva. As pessoas não gostam de riscos que não podem controlar. Muitas têm medo de voar, ficam assustadas, preocupadas, inquietas, apertam o apoio de braço com muita força. E, no entanto, não tiveram medo de dirigir para o aeroporto ou de pegar um taxi ao chegar em uma cidade qualquer. Você pode comentar a eles sobre as estatísticas, mas elas são pouco confortáveis. Parece que todo mundo prefere controlar ao invés de não controlar.

No meu caso, eu tinha estourado o meu joelho em uma lesão severa do ligamento anterior cruzado, jogando basquete na Universidade. Embora eu tenha continuado jogando até o final da temporada chegando nas finais, eu realmente não joguei tanto depois da faculdade, porque você precisa olhar para o aro para conseguir o rebote. Se você cai, pode torcer seu tornozelo ou forçar seu joelho – o que, no meu caso, eu sabia que estava pendurado por um fio. Então, parei de jogar basquete porque era muito perigoso. Eu não podia me machucar e ficar sem trabalho, porque na época era modelo e ator em Hollywood. Minhas finanças também estavam por um fio, mas eu não parei porque eu estava preocupado com as minhas habilidades. Foi por causa do risco que eu não podia controlar e, como mencionado, eu não estava sozinho. Quase todo mundo tem medo ou foge do risco que não pode controlar.

Esquiar, por outro lado, é um risco que depende do erro. Algumas quedas são muito simples: um ou dois estados levando a um ou mais erros críticos: um dos quais será uma perda de equilíbrio, tração ou firmeza.

Bem, as nuvens finalmente se dissiparam, e havia quase um metro de neve nova por todas as montanhas. Os engenheiros tinham um plano, as coisas estavam indo bem. Esquiamos em neve fresca durante a manhã toda, mas à tarde era difícil encontrar locais que ainda se mantinham intocados. Para a corrida seguinte, os engenheiros me disseram que desceríamos uma colina íngreme, uma faixa estreita de neve com pedras de cada lado. Elaine estava na frente – ela é uma esquiadora incrível. Ian era o segundo, eu o terceiro. Esquis deslizando para as laterais, esculpindo enormes curvas, a neve voando em belos arcos crescentes. Então, de repente, Elaine parou. Logo, Ian parou, e em seguida eu parei.

“Por que você parou? ” – perguntei, com uma frustração claramente perceptível na minha voz.

“Larry, temos que voltar. Se você cair, você morrerá.

O que aconteceu foi que descemos no corredor errado e ele simplesmente acabava num penhasco. Tivemos que dar um passo atrás, e como fazia cerca de 4 graus, cada passo era um esforço.

Se eu caísse, eu poderia levar Ian e Elaine comigo. Eu travei! Tão assustado que eu mal conseguia me mexer, e não havia espaço para eles me contornarem. Eu tinha que começar a subir novamente a montanha. Eu forcei uma perna a se mover, depois a outra. Lentamente, eu estava subindo, com Ian e Elaine me seguindo. Cada movimento calculado. Um passo após o outro.

Quando subimos algumas centenas de metros, eu consegui ver o topo. Não estávamos totalmente seguros ainda, mas eu pude sentir a segurança, e lembro-me claramente de dizer “que bom que eu deixei de jogar basquete, porque – convenhamos – é muito mais perigoso!”. E foi aí que eu percebi que o risco que depende do erro cresce com o tempo. O risco que você não pode controlar permanece praticamente o mesmo, mas o risco que depende de não cometer nenhum erro se baseia na suposição de que você estará prestando atenção. Como já discutimos, ao longo do tempo (esquiar por anos), é natural que sua mente divague ou não pense em tudo.

Presumi que as pessoas com as que eu estava esquiando sabiam para onde estávamos indo. Eu não perguntei, eles não confirmaram. Na pressa para esquiar em mais uma pista, combinada com muita complacência, sem problemas até aquele dia, quase cometemos um erro fatal. Muito pior do que uma lesão for falta de cuidado jogando basquete.

AUMENTANDO DELIBERADAMENTE O DESVIO DA MENTE NA TAREFA

No entanto, ou talvez infelizmente seja uma palavra mais adequada, há outro aspecto do Risco Deliberado e Erro que também vale a pena discutir: quando as pessoas fazem coisas que sabem que geram distração e aumentam o risco a ponto de cometerem os dois primeiros erros críticos ao mesmo tempo. Em outras palavras, eles estão deliberadamente aumentando o risco de um Momento Vulnerável, mesmo que não estejam realmente cientes do quanto estão aumentando o risco, ou de quanto risco há para que ocorra uma lesão grave ou incidente quando os olhos e a mente estão longe da tarefa ao mesmo tempo. Provavelmente o exemplo mais comum disso é o de escrever ou ler algo no seu celular quando você está em movimento ou quando veículos estão se movendo ao seu redor. Mas há muitas outras formas de distração que podem desviar seus olhos da estrada, da escada ou da calçada.

Os hábitos também podem desempenhar um certo papel, especialmente se você está habituado a caminhar ou dirigir e digitar mensagens a ponto de você não se dar conta. Existem pessoas que tentam não enviar mensagens ou falar ao telefone enquanto dirigem, mas essas mesmas pessoas também podem abrir exceções se houver pressa, frustração, cansaço e complacência suficientes. Portanto, se abrem uma exceção à sua própria regra, então provavelmente pensarão a respeito ao decidir verificar o celular enquanto estiverem dirigindo ou em movimento. No entanto, elas sabem que podem desviar o olhar por um segundo, desde que tragam novamente os olhos de volta para a estrada.

Na maioria dos casos não há consequências ruins, e é por isso que estão dispostas a desviar o olhar. Podemos até programá-lo para quando não há curvas e a estrada se mantiver razoavelmente reta por um tempo. Sabemos que se mantivermos nossas mentes na tarefa e no risco, poderemos desviar nossos olhos da estrada por um segundo sem causar um grande problema. À medida que o fazemos mais frequentemente, nos tornamos um pouco mais confortáveis. Muito em breve isso não será uma nova atividade, mas uma atividade habitual.

O SEGUNDO EXTRA

Mesmo assim, está tudo bem, até aquele “segundo extra”. Algo que você viu, seja um texto, um sinal de trânsito ou uma placa que dizia: “Fechado aos domingos”. Algo captou o seu olhar durante aquele segundo a mais, pelo qual você não esperava. Embora qualquer um possa fazer algo deliberado que gere algum tipo de distração, como dirigir e olhar o celular, não achamos realmente que possamos nos distrair naquele segundo extra.

Quase todo mundo já se distraiu por esse segundo a mais. Alguns apenas sofreram quase acidentes, alguns tiveram pequenas colisões e outros, colisões piores (atingiram um pedestre ou um ciclista, por exemplo). Eles sabiam que existia um risco, o que eles não sabiam era o risco do “segundo extra”. O que também é interessante é que a maioria deles disse que já havia vivenciado quase acidentes antes, a partir desse segundo a mais, mas porque nada aconteceu – era apenas um quase acidente – não pensaram de fato a respeito.

A segunda Técnica de Redução de Erros Críticos – Analisar Quase Acidentes e Pequenos Erros – é realmente útil aqui, e é daí que vem essa Mudança de Paradigma, porque você pode fazer coisas arriscadas, mas por um período muito curto, em que você ainda consegue manter sua mente na tarefa. Uma vez que o medo ou a habilidade já não o preocupam mais, você não pode realmente evitar o risco do “segundo extra” de maneira muito confiável. E a menos que você pense sobre o “segundo extra” – para que ele não aconteça – você pode facilmente entrar na linha de fogo ou perder o equilíbrio, tração ou firmeza, o que aumentará o risco de ferimentos ou incidentes.

Existem duas Mudanças de Paradigmas apresentadas nesse artigo e essas são as duas formas pelas quais as pessoas podem deliberadamente aumentar o risco de uma situação – sem saber em que medida podem realmente aumentar o risco:

1. Não perceber o “risco que depende do erro”, vai se tornando mais comum com o tempo. Logo acaba superando a quantidade de vezes em que você evita fazer algo que você acha arriscado (esqui vs. basquete).

2. Quando as pessoas, deliberadamente, fazem coisas que podem tirar a atenção, elas não levam em conta o “segundo extra” em que perdem o foco e que pode aumentar muito o risco.

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