Experiência, treinamento e conhecimento dos procedimentos são fundamentais para a segurança no trabalho. Quanto mais uma pessoa conhece sua atividade, maior tende a ser sua capacidade de identificar perigos e executar uma tarefa corretamente.
Mesmo assim, profissionais experientes também sofrem acidentes.
Esse aparente paradoxo foi um dos temas abordados no webinar “Por que pessoas experientes sofrem acidentes? A neurociência por trás dos fatores humanos”, realizado pela SafeStart Brasil no dia 13 de agosto.
A discussão chama atenção para uma questão importante: conhecer o risco não significa estar imune ao erro. Para compreender por que isso acontece, precisamos olhar para a forma como nosso cérebro funciona e para os fatores humanos que influenciam nossas decisões todos os dias.
Por que a experiência não elimina o erro humano?
Quando aprendemos uma nova atividade, naturalmente prestamos mais atenção. Precisamos pensar sobre os movimentos, lembrar as etapas e observar o ambiente com cuidado. Com a experiência, isso muda. O cérebro aprende padrões e torna determinadas ações cada vez mais automáticas.
Essa capacidade é extremamente útil, pois permite executar tarefas conhecidas sem utilizar o mesmo nível de esforço mental exigido durante o aprendizado. O problema surge quando a familiaridade diminui nossa percepção sobre os riscos. Depois de realizar uma tarefa centenas ou milhares de vezes sem consequências negativas, podemos deixar de dedicar a ela o mesmo nível de atenção.
É nesse momento que experiência e complacência podem começar a se aproximar.
O cérebro busca eficiência
Imagine dirigir por um caminho que você percorre todos os dias. Em alguns momentos, você chega ao destino sem se lembrar claramente de determinados trechos do percurso. Isso não significa que você não saiba dirigir. Pelo contrário. A atividade se tornou tão familiar que grande parte dela passou a ser executada automaticamente.
No ambiente de trabalho acontece algo semelhante. Operar uma máquina, utilizar uma ferramenta ou realizar uma inspeção repetitiva pode exigir muita concentração no início. Com o tempo, o cérebro reconhece padrões e reduz o esforço necessário para executar aquela atividade.
Essa eficiência é importante para o desempenho humano. Mas também cria um desafio para a segurança: quanto mais familiar uma tarefa se torna, mais fácil é subestimar os riscos presentes nela.
Complacência não significa falta de responsabilidade
Quando falamos em complacência, é importante evitar uma interpretação equivocada. Não estamos falando necessariamente de uma pessoa irresponsável ou que decidiu ignorar as regras. A complacência pode surgir justamente porque alguém possui muita experiência e realizou aquela atividade inúmeras vezes sem que nada desse errado.
A ausência repetida de consequências pode alterar nossa percepção. O risco continua existindo, mas deixa de provocar o mesmo nível de atenção. Por isso, dizer simplesmente a um profissional experiente para “prestar mais atenção” dificilmente resolve o problema.
A prevenção precisa ajudá-lo a reconhecer quando a familiaridade está influenciando sua percepção e seu comportamento.
Como os fatores humanos influenciam profissionais experientes
A complacência não atua sozinha. Mesmo uma pessoa altamente qualificada continua sujeita a condições físicas e mentais que podem alterar seu desempenho. Pressa, frustração e cansaço podem comprometer a atenção e favorecer decisões que, em condições normais, aquela mesma pessoa provavelmente não tomaria.
Imagine um operador com 15 anos de experiência que está no final de um turno cansativo. Ele conhece o equipamento, sabe quais são os riscos e domina o procedimento. Nada disso, porém, elimina os efeitos do cansaço sobre sua atenção.
É por isso que conhecimento e experiência são fundamentais, mas não suficientes para explicar ou prevenir todos os acidentes.
O que acontece quando a atenção diminui?
Na metodologia SafeStart, pressa, frustração, cansaço e complacência são estados que podem aumentar a probabilidade de quatro erros críticos: olhos longe da tarefa, mente longe da tarefa, entrar na linha de fogo e perda de equilíbrio, tração ou firmeza.
Esses erros ajudam a compreender como uma pessoa experiente pode entrar em contato com um perigo que conhece perfeitamente. Ela não precisa desconhecer o risco. Basta um momento em que sua atenção esteja comprometida, sua mente esteja em outro lugar ou sua posição a coloque na trajetória de uma energia perigosa.
Essa mudança de perspectiva é importante porque desloca a pergunta de “por que ele fez isso se sabia que era perigoso?” para “o que estava influenciando seu estado e sua atenção naquele momento?”
Fatores humanos e prevenção de acidentes
Reconhecer a influência dos fatores humanos não significa diminuir a importância dos treinamentos, procedimentos, EPIs ou controles de engenharia. Todos eles continuam sendo fundamentais para a prevenção.
O desafio aparece quando esperamos que conhecimento e cumprimento de regras sejam suficientes para impedir todos os acidentes. Uma pessoa pode conhecer perfeitamente um procedimento e ainda assim cometer um erro durante sua execução.
Por isso, organizações que desejam avançar em sua cultura de segurança precisam complementar os controles tradicionais com habilidades que ajudem as pessoas a reconhecer como seu próprio estado pode influenciar suas decisões.
Como desenvolver autoconsciência para reduzir erros
Se não podemos eliminar completamente pressa, frustração, cansaço ou complacência, precisamos aprender a reconhecê-los.
É aí que a autoconsciência se torna uma importante habilidade de prevenção.
Perceber que estamos acelerando uma atividade, identificar que o cansaço está comprometendo nossa concentração ou reconhecer que uma tarefa se tornou automática cria uma oportunidade para recuperar o foco antes que um erro aconteça.
Com prática e reforço, essa percepção pode se transformar em hábito. A pessoa deixa de depender apenas de alguém dizendo para “tomar cuidado” e começa a identificar por conta própria quando sua vulnerabilidade ao erro aumentou.
Experiência e autoconsciência precisam caminhar juntas
Ter profissionais experientes é um grande ativo para qualquer organização. O objetivo não é tratar a experiência como um problema, mas reconhecer que ela não torna ninguém imune aos fatores humanos. A experiência ajuda a conhecer a tarefa. A autoconsciência ajuda a perceber como estamos executando essa tarefa naquele momento.
Quando essas duas capacidades caminham juntas, a prevenção se torna mais consistente. O profissional não depende apenas do que aprendeu ao longo dos anos, mas também desenvolve a habilidade de reconhecer mudanças em seu próprio estado antes que elas contribuam para um erro.
Esse é um dos caminhos para transformar experiência em uma defesa ainda mais forte contra acidentes.
O papel do SafeStart na gestão dos fatores humanos
O webinar “Por que pessoas experientes sofrem acidentes? A neurociência por trás dos fatores humanos” aprofundou essa discussão e mostrou por que compreender o funcionamento humano é essencial para organizações que desejam ir além dos controles tradicionais de segurança.
A metodologia SafeStart ajuda organizações a desenvolver habilidades de autoconsciência e redução de erros, fortalecendo a capacidade das pessoas de reconhecer fatores humanos antes que eles contribuam para acidentes.